domingo, 10 de maio de 2015

Frango, flores e sacolas: uma homenagem à minha mãe


 
Roseli, minha mãe
  Impossível não notar sua presença. Ela chega agitando o ambiente, com alegria e bom humor incomuns. Espalha as sacolas sobre a mesa, exalando um perfume floral, e vai direto para o fogão. Sempre observei esse movimento rotineiro da minha mãe. Trabalhar é o seu verbo. Seja em casa, seja fora dela. Eu a observo.

     Na infância, me chateava com o roteiro doméstico. Lavar a louça toda antes de dormir. Eu a esperava, apesar do sono.
-- Por que vocês olham para mim e enxergam comida?
-- Porque a senhora é nossa primeira fonte de alimento.
     A receita do frango ensopado foi herança da minha avó. E apesar dos protestos do meu pai, ela repete o preparado com a mesma frequência com que desejamos saboreá-lo. De todos os talentos que ela tem, cozinhar é o meu preferido e o que eu mais gostaria de herdar. É o gosto da infância.
     São também minhas recordações pueris que me remetem à imagem do seu cabelo comprido, quase na cintura. Ela costumava prendê-lo com um coque no alto da cabeça. Sempre de saia, sem bijuteria nem maquiagem. Vestia-se como a  moda das mulheres da igreja naquela época.
    Depois resolveu estudar. Conheceu Aristóteles e os grandes pensadores. Modernizou-se, deixando para trás alguns costumes antigos. Fez novos cursos, novas ideias, mais trabalho.
     Perguntava-me, muitas vezes, por que tanta agitação. De cabeleireira à artesã, empresária, funcionária pública. Ela transita pelas muitas profissões que exerce. Por isso a casa cheirava a chocolate, quando ela vendia ovos de páscoa. Aroma agradável que agora deu lugar ao doce perfume das flores. Ela coloca grandes ramalhetes de rosas dentro de um balde d'água. Senta na banqueta e com um faca de cozinha vai arrancando  os espinhos das rosas que virarão o enfeite de festa. Um prazer  eventual, feito anteriormente apenas no casamentos de amigos, que se transformou na sua grande empreitada.
     Com o tempo, aprendemos a perceber a família aguçando nossos sentidos. O jeito como mexe as chaves no portão já revela o som de quem está chegando. Minha mãe tem barulhos de sacolas. Ela tosse e faz um "rum rum" peculiar e  inconfundível. Depois de um dia cheio de trabalho, os pacotes nas mãos são a campainha que anuncia sua presença. Não me lembro nunca de vê-la chegar sem eles. Ela carrega a mistura do jantar, o remédio que um parente solicitou, as compras para ajudar a moça da Avon, uma porção de sonhos, muitas orações e algumas frustrações.
    Sinto que a vida passa e eu continuo a observá-la. Mas meu olhar de menina ficou para trás e a fase adulta nos abre a sensibilidade de um modo estranho. Posso ver mais que o coque na cabeça, posso ver as marcas de sua preocupação. Sentir o cheiro das suas fragilidades e o gosto da minha culpa quando dou mancada.
     Mãe, te amo com um amor sensorial. Meu desejo é que experimente, com grande  liberdade,  os melhores sabores que a vida possa lhe proporcionar. Livre de algumas sacolas que não são suas. Para que, com gratidão, a senhora possa devolver à vida seu perfume de rosa.

Na sequência, eu, Vivian, mãe e Vanusa 


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