domingo, 7 de dezembro de 2014

Procrastinação

PROCRASTINAÇÃO


“Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algum que um homem se escravize ao seu relógio
e regule as suas ações pelo movimento de uma pequena agulha de aço ou pelas oscilações de uma pêndula.”
Cinco minutos, José de Alencar

            Era final do ano de 2006. Época em que os professores quase ficam malucos corrigindo provas, fechando notas, preenchendo relatórios. Eu trabalhava como professora de Espanhol numa escola particular. Tinha 22 turmas. Isso significa uma maratona de 22 diários para entregar, com notas de aproximadamente 30 alunos por sala. Só de lembrar me canso. Como tarefa pouca é bobagem, eu ainda participava de quase todos os encontros da igreja: era superintendente da Escola Bíblica, cantava no coral, frequentava todas as reuniões, eventos... E se tivesse um tempo, ainda fazia algum curso. Tantas atividades assim só poderiam tornar minha singela capacidade de procrastinar cada vez mais forte.
            Procrastinar é adiar. Por que deixar para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã? É uma loucura do pensamento que acredita que o tempo pode ser esticado mais um pouquinho como um tecido elástico. Eu fazia isso quase sempre.
            Quando a Carol me contou que estavam selecionando professores brasileiros para Bolsas de estudo na Espanha, fiquei animada. Tentei entrar no site, mas a página não abriu. Depois eu faço isso. E continuei na correria do meu dia-a-dia.
            Conheci a Carol no Colégio Etapa, onde fomos estagiárias. Junto com a Alê, formávamos o Trio Portuga. Logo descobrimos que estudávamos na mesma universidade. Em poucos meses éramos amigas de infância. Tantas afinidades, tantas risadas, tanto choro! Tudo era compartilhado em infinitas conversar pela madrugada afora. Em 2005, a Carol foi para a Europa pela primeira vez. Eu e Alê acompanhávamos tudo pelo blog que ela escrevia para contar da viagem. No ano seguinte, a Alê também fez um tour pelo velho continente. Comecei a achar que já não teria tanto assunto assim com as meninas. Do que eu ia falar? Da minha viagem a Embu-Guaçu para visitar minha avó?
            O sonho de quem estuda uma língua estrangeira por tanto tempo como eu é conhecer o país onde ela é falada. Eu queria conhecer a Argentina e os outros países hispano-americanos também, mas a Espanha era meu sonho maior. Só que, no meu primeiro emprego com professora, o sonho ainda estava muito distante. Foi quando a Carol me ligou, em novembro daquele ano, para me falar da bolsa.
            Quase perto do Natal, finalmente estamos livres das tarefas do trabalho escolar. Porém, na igreja, a agitação se intensifica. Ensaios e mais ensaios. Não que esses compromissos não fossem importantes. Mas eu estava num ativismo exagerado. Adiei mais umas duas vezes a inscrição para concorrer ao curso. Era preciso escrever uma carta explicando por que eu estava me candidatando à bolsa. Escrevo essa carta depois. Também, acho que eu não estava acreditando muito que fosse possível ganhá-la. Foi quando minha amiga me ligou:
            --Vaninha, ganhei a bolsa de estudos! Eu vou pra Espanha!!!
            Chorei. Nunca tinha experimentado sentimentos tão diferentes ao mesmo tempo. Uma mistura de alegria pela conquista da Carol junto com uma frustração indescritível por ter adiado algo que era um sonho para mim. Se eu tivesse tentado... Minha mãe não entendia o porquê da choradeira. Tive que contar todo o processo, engolir o choro e seguir a vida. Conselhos de minha mãe.
            À noite, pedi sinceramente a Deus que perdoasse esse meu defeito. E que se o Senhor me desse mais uma chance, eu a aproveitaria de todo coração. Não sei de onde eu tirei essa ideia de segunda chance, mas ela veio.
            Em janeiro, recebi um email anunciando novas inscrições para bolsas de estudo. Dessa vez nem precisava escrever carta nenhuma. Sem contar para ninguém, me inscrevi e esperei. O sorteio seria em fevereiro.
            No dia marcado, a Carol me ligou de novo me chamando para ir com ela até Pinheiros. Tudo bem, mas antes tenho que passar pela USP, pode ser? No caminho ela perguntou o que eu ia fazer na USP, se já estávamos formadas há tanto tempo. Foi quando contei a história do sorteio.
            Chegamos à sala 102 do prédio de Letras às 14h05. Estávamos cinco minutos atrasadas. Meu coração estava a mil. Quando entrei, reconheci a moça que estava organizando as fichas. Tinha sido minha primeira professora de Espanhol no Centro de Línguas Mauro de Oliveira, quando eu tinha 16 anos. Foi ela quem me apresentou o idioma. Fiquei feliz por reencontrá-la.
            --Carol, acho que já acabou o sorteio.
            Professora Tatiana disse que falaria novamente os nomes dos sorteados. Eram cinco. O último: Vania Gonçalves.
            -- Vania ORTIZ Gonçalves?
            -- Sim, Vania Ortiz Gonçalves.
            O pessoal não entendeu tanta euforia. Duas garotas abraçadas pulando juntas no meio da sala.
            O detalhe é que os cursos aconteceriam em diferentes cidades da Espanha, em várias datas do ano de 2007. O meu poderia ter sido em janeiro, maio, outubro. Mas eu ganhei a bolsa do mês de julho, em Salamanca. Exatamente no mesmo mês e na mesma cidade onde a Carol estudaria. Ela ainda não tinha comprado as passagens. Compramos juntas, viajamos juntas. Foi um dos mais incríveis meses da minha vida, numa viagem inesquecível.

            Eu ainda adio tantas coisas! No entanto, minha gratidão a Deus por sua misericórdia comigo nesse episódio é eterna. 


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