segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Nazareno



NAZARENO

Estando a família reunida no mesmo lugar, comentava sobre os últimos acontecimentos.

— Mais tarde vou visitar dona Maria. Muito triste o que aconteceu com o filho dela.
— Mas nós mal superamos a nossa perda, a senhora já quer ir consolar os outros? — a filha mais velha exclamou, enquanto punha na mesa o pão ainda quente.
— É assim mesmo, minha filha. Uma ajuda a outra.

Eram tempos de vazio. A reunião familiar amenizava o sofrimento. Na janela, o sol iluminava o cômodo com os primeiros raios da manhã. O filho dividiu o pão com a criança:

— Aquele maluco era da hora! Cara gente fina! O que fizeram com ele foi muita injustiça.

A filha do meio não estava por dentro da conversa, morava longe. Vinha de vez em quando porque também sentia que estarem juntos era um bálsamo para a dor.

— É o Nazareno, filho da dona Maria e do seu Zé, marceneiro? — perguntou.
— Ele mesmo — confirmou a filha mais nova.
— Caramba! Não estava sabendo!
— Tá no mundo da lua? Só se fala disso desde sexta-feira — retrucou o filho.

Ela ignorou o comentário e bebeu do suco de uva. A casa pequena trazia aconchego. Tinham decidido abandonar a casa anterior, pois trazia muitas lembranças. O filho seguiu falando do vizinho:

— O cara era gente fina. Falava de igual pra igual com todo mundo. Até na festa do Sem Valor ele apareceu um dia.
— O problema era esse — disse a filha mais velha. — Ninguém nunca viu um tipo como ele se misturar assim com o povão.

O filho bebeu do suco de uva e continuou:

—Teve uma vez que ele arranjou uns lanches pra gente do nada. Tinha uma galera subindo o Pico do Jaraguá com ele. Bateu a fome no pessoal. Ele pegou uma mochila de alguém e começou a distribuir lanche. Ninguém sabe de onde saiu tanto pão.
—Pra mim ele era um anjo — justificou a mãe. — Por isso vou visitar dona Maria e seu Zé hoje que é domingo. Amanhã eu trabalho.
—Pra mim ele era um maluco! — completou a filha mais velha. Levantou-se e foi até a sala.

Na estante, olhou fixamente uma foto da família e passou com ternura os dedos pelo rosto dele. Suspirou de um modo profundo. Sentia-se estranha. A dor, as lembranças, a gratidão, tudo misturado como um mosaico ainda sem forma, tentando desenhar algo que ela ainda não sabia descrever.
Na cozinha, seus irmãos terminavam o café da manhã.

—Me passa o suco, por favor! — a filha mais nova pediu enquanto mexia no celular. — Eita! Parece que aconteceu alguma coisa estranha lá em Perus. Tão falando em terremoto.
— Terremoto em Perus? Essa é boa... — a filha do meio riu em tom de deboche.

Nesse instante, o cão levantou as orelhas pressentindo a chegada de alguém. Olharam-se e a filha mais nova perguntou:
—Está esperando alguém, mãe?
—Não. Quem será a essa hora?

O abanar do rabo e a expectativa positiva do cachorro indicavam que um conhecido estava do lado de fora. Bateram à porta.
Houve um profundo silêncio quando a porta se abriu. Sem conseguir dizer nada, ela o olhou de cima a baixo. Os cabelos encaracolados, os olhos cujas pálpebras levemente caídas marcavam o traço de família e os poucos fios de barba no queixo indicavam que era o mesmo. Estava sem o paletó azul e a camisa, já quase desmaterializada, tinha manchas de terra. Por alguns segundos eles apenas se olharam e ele parecia compreender o espanto da moça. Com paciência, aguardou sua reação.
 Apesar de reconhecê-lo, notava algo de diferente no seu semblante. Teve medo e afastou-se com um passo atrás.

— Calma. Sou eu. Não precisa ficar com medo.

A voz conhecida levantou os outros familiares de seus lugares à mesa. Foram em direção à sala.
Todos da mesma maneira, estatelados, paralisaram diante da figura na porta. Temor e euforia lhes corriam as veias. Eu vou acordar, pensou ela. É um sonho.
Ele entrou, sentou-se no sofá. O cãozinho confiante arranhou suas pernas e lhe lambia as mãos, o rosto. Acalmada a euforia inicial, sentou-se tranquilamente aos seus pés e ajeitou a cabeça sobre seus sapatos.

— Estou passando mal – a mãe disse sentando-se na cadeira oposta ao sofá.
— Calma, mãe. Pega um copo d’água pra ela — a filha do meio pediu à mais nova.

Ele brincou com o cachorro num gesto costumeiro.

—Como... ? — a filha mais velha não soube completar a pergunta, que ele via estampada no rosto de todos.
— Foi o Nazareno. Aquele rapaz, filho do seu Zé, marceneiro. Foi o que nos contaram. Ninguém estava entendendo nada. Uma força tão grande puxou a gente de lá! Foi uma confusão em Perus. Todo mundo meio zonzo, sem saber direito onde estava. Um tumulto danado. Gente correndo apavorada pra todo lado. Daí apareceram uns caras grandões, mas bem serenos. Eles que disseram que foi o Nazareno. A força que tirou ele de lá também tirou vocês. Não tenham medo! Voltem para suas casas.

Tremiam.

—Tivemos que voltar a pé, por isso estou com sede — ele disse enquanto brincava com o cachorro. — Alguém me arruma um copo d´água, por favor. Um copo, não. Um balde.

Ela sorriu. Era familiar, tão familiar o pedido e tão natural que de certa maneira a despertara do sonho. Lágrimas de espanto e felicidade escaparam-lhe dos olhos e já não resistia mais à vontade de acreditar. Foi em direção a ele.

— Pai! Que saudade!
Os outros fizeram o mesmo.  





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